sábado, 5 de Novembro de 2011

DOIS AVINTENSES EM ALDEIA FORMOSA

Mensagem de Manuel da Costa Monteiro, Furriel Miliciano, que pertenceu à 1ª. Companhia do Batalhão de Artilharia 6523, Madina Mandinga, Guiné, 1973/74, com data de 2 de Novembro de 2011

Aldeia Formosa foi, no período de 1972/74, um centro nevrálgico no Sul da Guiné. Ali se encontraram dois amigos – camarigos, tratamento dado aos Combatentes da Guiné – o Antero Santos e o Jaime Ramos.

Aldeia Formosa - vista aérea

Costuma-se dizer e por vezes com certa razão que alguém que escreve sobre os amigos, vai enaltecer com loas e mentiras certos feitos que foram protagonizados por eles, não é este o caso, pois o que eu quero com este escrito e o que pretendo ao falar de dois amigos/camarigos é tão só que fique registado para os vindouros, contribuindo com pequenas estórias para a história do que foi a saga de três gerações de portugueses que se bateram com coragem e determinação para defenderem o que à data era Portugal, pois Portugal ia do Minho a Timor, e das quais eles fizeram parte e fazem – uma vez Combatente, Combatente toda a vida.


Pois bem, dois amigos que o destino quis que se juntassem em Aldeia Formosa, lugar onde estava o Antero, com o posto de Furriel Miliciano, enquadrado na C.CAÇ. 18 (Companhia Africana) desde o início de Janeiro de 1973 depois de ter estado durante um mês em Bolama – a fazer o IAO – e sete meses em Empada, na C.CAÇ. 3566 – Os Metralhas, e onde chegou o Jaime, também com o posto de Furriel Miliciano, em Abril desse mesmo ano, fazendo parte da 3ª C.CAÇ. do B.CAÇ 4513.
Muitas peripécias eles contam, algumas delas angustiantes, para quem como eu, que estando numa zona 100% operacional (Madina Mandinda, na zona de Gabu, leste da Guiné), tive a felicidade de nunca cair numa emboscada ou de emboscar o IN, nunca tive qualquer contacto com o IN, nunca soube o que era um ataque ao aquartelamento nem o que era um homem pisar uma mina.
Verifico que para muitos dos Camarigos e para estes em particular, que a comissão de serviço foi dura e hoje compreendo como é difícil falarem sobre o que lá viveram, embora aos poucos eles vão abrindo o seu bloqueamento, ao seu passado/vivido, principalmente com outros camarigos. Agora começo a compreender o que é o stress de guerra, mal que infelizmente ainda não é reconhecido como doença provocada pela guerra; centenas ou milhares de homens vão padecendo com todas estas mazelas, não merecendo qualquer apoio do Estado.

Rio Corubal - local onde se fazia a "cambança" - Aldeia Formosa/Saltinho - do lado de Paté Embaló

É mera coincidência, mas os nossos Camarigos Antero e Jaime tinham a especialidade de Atiradores de Infantaria e o curso de Minas e Armadilhas (especialidade em que um homem só se engana duas vezes, a primeira e a última) e como tal, o montar campos de minas, que tiveram de desmontar muitos meses depois, foram situações de risco bastante elevado que tiveram de cumprir.
Não chegava estarem longe de todos os seus familiares e amigos e tinham de conviver no seu dia a dia com situações desagradáveis e quiçá perigosas.
O Antero comandou o seu grupo de combate (porque o Alferes havia sido deslocado para um Pelotão de Nativos) e tinha de ser a figura de comandante, juiz, apaziguador, branco no grupo de vinte e seis negros e que acima de tudo tinha de ter a admiração deles; essa admiração foi sendo conquistada ao longo dos meses com atitudes de perseverança e ele tudo isto conseguiu pois, tal como outros, ele pôs em prática o ditado que diz FÁCIL É RECONHECER OS ERROS DOS OUTROS, DIFÍCIL É RECONHECER OS NOSSOS.

C.Caç. 18 - Grupo de combate do Antero (concentração dos soldados para mais uma saída para o mato)

O Jaime também não teve uma vida fácil pois fez parte de um Companhia que chegou a Aldeia Formosa num dos períodos mais difíceis da região Sul, em que se estava a construir uma estrada que iria penetrar em santuários do PAIGC (Salancaur Cul, Unal, Chin Chin Daril) e todos os dias tinha de se dar protecção à frente de trabalhos. Ao longo desta estrada as nossas tropas caíram em muitas emboscadas e quase todos os dias tinha de se proceder ao levantamento ou à neutralização de minas que eram colocadas durante a noite. O Jaime também teve a experiência de estar várias vezes debaixo de fogo IN, felizmente sem ter sofrido mazelas físicas e a sua Companhia teve bastantes feridos, principalmente no período de Abril a Julho de 73, tendo participado na operação BALANÇO FINAL em que se procedeu à tomada de Nhacobá (povoação controlada pelo PAIGC) e de que resultaram 17 mortos nas forças do IN, além da apreensão de algum armamento.
Resultados da Operação BALANÇO FINAL

A todos os Camarigos eu digo que a História (e nós fizemos História) é depósito de acções, testamento do passado, exemplo e aviso para o presente e advertência para o futuro e acreditem que é com orgulho que eu falo e escrevo, porque tenho a força moral de falar da Guerra de África porque eu estive lá, vivi-a!

Aldeia Formosa - aquartelamento

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